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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

MORTE E CHOCOLATE
Primeiro, as cores. Depois, os humanos. Em geral, é assim que vejo as
coisas. Ou, pelo menos, é o que tento.

• EIS UM PEQUENO FATO •
Você vai morrer.

Com absoluta sinceridade, tento ser otimista a respeito de todo esse
assunto, embora a maioria das pessoas sinta-se impedida de acreditar em mim,
sejam quais forem meus protestos.
Por favor, confie em mim. Decididamente, eu
sei ser animada, sei ser amável. Agradável. Afável.
E esses são apenas os As.
não me peça para ser simpática. Simpatia não tem nada a ver comigo.

• REAÇÃO AO FATO SUPRACITADO •
Isso preocupa você?
Insisto — não tenha medo.
Sou tudo, menos injusta.
— É claro, uma apresentação. como pude me esquecer ...

Um começo.
Onde estão meus bons modos?
Eu poderia me apresentar apropriadamente, mas, na verdade, isso não é
necessário. Você me conhecerá o suficiente e bem depressa, dependendo de uma
gama diversificada de variáveis. Basta dizer que, em algum ponto do tempo, eu me
erguerei sobre você, com toda a cordialidade possível. Sua alma estará em meus
braços. Haverá uma cor pousada em meu ombro. E levarei você embora
gentilmente.

Nesse momento, você estará deitado(a).
Estará solidificado(a) em seu corpo. Talvez haja uma descoberta; um grito
pingará pelo ar. O único som que ouvirei depois disso será minha própria
respiração, além do som do cheiro de meus passos.
A pergunta é: qual será a cor de tudo nesse momento em que eu chegar
para buscar você? Que dirá o céu?
Pessoalmente, gosto do céu cor de chocolate. Chocolate escuro, bem
escuro. As pessoas dizem que ele condiz comigo. Mas procuro gostar de todas as
cores que vejo o espectro inteiro. Um bilhão de sabores, mais ou menos, nenhum
deles exatamente igual, e um céu para chupar devagarinho. Tira a contundência
da tensão. Ajuda-me a relaxar.

• UMA PEQUENA TEORIA •
As pessoas só observam as cores do dia no começo e no fim, mas, para mim, está
muito claro que o dia se funde através de uma multidão de matizes e entonações, a
cada momento que passa.
Uma só hora pode consistir em milhares de cores diferentes.
Amarelos céreos, azuis borrifados de nuvens. Escuridões enevoadas.
No meu ramo de atividade, faço questão de notá-los.
Já que aludi a ele, o único dom que me salva é a distração. Ela preserva
minha sanidade. Ajuda-me a agüentar, considerando-se há quanto tempo venho
executando este trabalho. O problema é: quem poderia me substituir?
Quem
tomaria meu lugar, enquanto eu tiro uma folga em seus destinos-padrão de férias,
no estilo resort, seja ele tropical, seja da variedade estação de inverno? A resposta,
é claro, é ninguém, o que me instigou a tomar uma decisão consciente e
deliberada — fazer da distração minhas férias. Nem preciso dizer que tiro férias à
prestação. Em cores.
Mesmo assim, é possível que você pergunte: por que é mesmo que ela
precisa de férias? De que precisa se distrair?
O que me traz à minha colocação seguinte.
São os humanos que assombram.
Os sobreviventes.
É para eles que não suporto olhar, embora ainda falhe em muitas
ocasiões. Procuro deliberadamente as cores para tirá-los da cabeça, mas, vez por
outra, sou testemunha dos que ficam para trás, desintegrando-se no quebracabeça
do reconhecimento, do desespero e da surpresa. Eles têm (orações vazados.
Têm pulmões esgotados.
O que por sua vez, me traz ao assunto de que lhe estou falando esta noite,
ou esta manhã, ou seja lá quais forem a hora e a cor. É a história de um desses
sobreviventes perpétuos uma especialista em ser deixada para trás.

AO LADO DA LINHA FÉRREA
Primeiro aparece uma coisa branca. Do tipo ofuscante.
E muito provável que alguns de vocês achem que o branco não é
realmente uma cor, e todo esse tipo batido de absurdo. Bem, estou aqui para lhes
dizer que é. O branco é sem dúvida uma cor e, pessoalmente, acho que você não
vai querer discutir comigo.

• UM ANÚNCIO TRANQÜILIZADOR •
Por favor, mantenha a calma, apesar da ameaça anterior.
Sou só garganta...
Não sou violenta.
Não sou maldosa.
Sou um resultado.

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